segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Abraço de Amiga


Dois amigos – um menino e uma menina – estavam sentados em um banco. A menina estava chorando, e disse que precisava de um abraço. Ele a abraça com todo o seu carinho. Então ela diz:
—Não, não desse jeito, amigo.
—Por quê?
A menina, desconsertada, não soube como responder. Encontrou então a resposta mais básica e simples que poderia:
— Porque amigos não se abraçam assim.
O menino consertou o abraço, mas mesmo assim, estava perplexo. Queria saber mais.
— Mas você está triste e precisando de carinho, certo? Por que não posso te abraçar assim?
—Já disse, amigo. Você é meu amigo, e me dá o seu carinho assim. Se fizer do outro jeito, vai ser outra coisa. Meu namorado ou coisa do tipo.
—Entendi — disse o menino, com muitas dúvidas na cabeça. — Mas porque você abraça aquele seu outro amigo diferente de mim?
A menina ficou em silêncio por algum tempo. Fez alguns sons estranhos e então disse:
— Porque com ele é diferente.
—Ele é seu namorado ou coisa do tipo? Pensei que seu namorado fosse aquele que fez você chorar tanto.
—Não, aquele amigo não é meu namorado. Ele é um amigo... especial.
—Entendi — disse o menino, ainda mais confuso. — Eu não sou seu melhor amigo?
—É claro que é! — disse a menina, como se estivesse ofendida. — Você é o meu melhor amigo do mundo, amigo. Eu não sei o que faria sem você.
—Mas eu não sou especial... — disse o menino, entristecido.
—É claro que é! O mais especial de todos.
—Entendi — não, mais uma vez, o menino não tinha entendido. — Mas se eu sou o mais especial, porque não posso te abraçar como os menos especiais te abraçam?
—Porque é diferente.
—Entendi — outra vez, ele não entendeu. — Eu queria poder abraçar você como os menos especiais te abraçam. E encostar meus lábios nos seus, como eles fazem. Será que eu não mereço, por ser o mais especial entre todos?
—Amigo — disse a menina, pacientemente. — Se você fizer isso, vai deixar de ser o mais especial entre todos. Vai ser só mais um menos especial.
—Entendi — o menino estava cada vez mais confuso. — Mas não é você que procura a pessoa mais especial do mundo para poder abraçar daquele jeito e encostar os seus lábios? Alguém tão especial que jamais encostaria os lábios nos lábios de outra amiga? Eu sou especial assim, não sou?
A amiga ficou quieta, mantendo o sorriso no rosto. O menino a achava linda, e passava a mão por seus cabelos lhe fazendo carinho, querendo muito abraçá-la diferente e encostar seus lábios nos dela. Mas ela disse que não podia, por algum motivo. E ele a respeitava.
O menino ficou esperando uma resposta, até que ela veio.
—Eu sou muito nova pra pensar nisso amigo. Esquece isso, e seja meu amigo mais especial do mundo, por favor?
—Eu vou ser sim, pode deixar — disse o menino. — Só tenho mais uma pergunta amiga, se não for te incomodar.
—Pode dizer, amigo — a menina não estava mais tão paciente.
—Porque você abraça diferente aquele seu amigo que tem namorada, sendo que ela é sua amiga? E porque você abraçava ele diferente quando namorava com o menino que te fez chorar? Não foi ele ter abraçado diferente sua amiga que te fez chorar?
A menina ficou em silêncio por algum tempo. Continuou em silêncio por mais tempo, até que abraçou o menino – não diferente – mais forte e espremeu mais lágrimas. Então ele disse:
—Entendi.
E dessa vez ele tinha entendido. Naquela noite, ele chorou tanto quanto a sua amiga, talvez até mais. Daquele dia em diante, ele jamais teria amigas muito especiais. Se quisesse algum dia abraçar uma menina diferente ou encostar seus lábios nos dela, teria que ser muito menos especial. Porque então, ele seria diferente. E não ia precisar chorar.