O trânsito é um negócio complicado. Mas pior ainda é às seis da tarde, em plena Avenida do Estado, querendo voltar pra casa.
De um lado, os tiozinhos vendendo chocolate, amendoim, queijo quente e todo tipo de besteira – que é meio difícil de resistir às vezes, devo admitir. Do outro, o corredor de motoqueiros e sua barulheira dos infernos. Uma leve esterçada no volante é perigosa: seu retrovisor pode ser vítima de um golpe mortal. Em seguida, você vai ser xingado e ouvir as buzinadas ferozes de toda a trilha de motoqueiros que vem logo atrás. É melhor não tentar mudar de faixa nessas horas.
Isso tudo pra não falar da molecada pedindo dinheiro e você se sentindo um grandissíssimo filho de uma puta por preferir comprar um saquinho de amendoim do que dar uma moeda de um real pra um dos moleques. E lógico, a galera que vem limpar o vidro do seu carro com alguma substância diferente de água e sabão, por que mais suja o vidro do que limpa. E como falar pros caras que você não quer o serviço deles, por mais que seja de coração? Camarada, eu não tenho dinheiro!
Mas a pior parte, com certeza, é quando lá de longe, você vê o farol verde. Você acha que vai andar e espera, já com o pé na embreagem e a primeira marcha engatada. Mas não anda. O trânsito continua no mesmo lugar. O farol fica vermelho e volta a ficar verde outra vez. Quando fica vermelho de novo, volta tudo: os tiozinhos, os motoqueiros, a molecada e a galera que limpa o vidro. É um ciclo infernal que parece que não vai acabar nunca.
Nessas horas, minha cabeça começa a esquentar. Eu aumento o som no talo, e começo a gritar com a música, tentando esquecer onde eu estou. Não quero saber daquele trânsito, de mais nada.
Um dia desses, nesse exato momento que já virou parte da minha rotina, aconteceu um negócio diferente. Brincando de tocar bateria, como gosto de fazer, eu de repente não estava mais na Avenida do Estado. O banco do carro virou um banquinho, e o painel do carro, um monte de tambores e pratos. O pedal do freio era o pedal do bumbo e as baquetas que eu imaginava, estavam em minhas mãos. Muitas luzes, vermelhas e esbranquiçadas apontavam para o meu lugar, me dando destaque.
Ouvi um barulho incomum, insano, absurdo, de muitas pessoas gritando. Era uma multidão. Me levantei devagar e percebi onde estava: um enorme estádio. Deviam ser mais de cem mil pessoas na platéia e no palco, apenas eu e a bateria.
A princípio, fiquei nervoso, sem saber o que fazer. Mas começaram a gritar meu nome com vontade, com paixão. Cem mil pessoas me admiravam, me idolatravam. Eu era o astro do rock que sempre sonhei. Me vi com um headset na cabeça, e percebi que era hora de me apresentar, de dar as boas vindas ao meu público.
— Boa noite, São Paulo!
A multidão respondeu com gritos ainda mais fervorosos.
— Essa noite, somos só vocês e eu!
Sentei de volta no banquinho e comecei a debulhar a bateria. A cada prato atacado pelas baquetas, a resposta da multidão era ainda maior.
Era aquilo que eu queria. Eu não lembrava que tinha um emprego, que precisava enfrentar o trânsito, que não era só mais alguém. Ali, naquele momento único, eu era quem eu queria ser de verdade.
Quando terminei a primeira música, me levantei do banquinho, erguendo os braços com as baquetas nas mãos. Mas não consegui levantar totalmente. Alguma coisa impedia que minha cabeça fosse mais alto e meus braços se esticassem mais.
Foi aí que me dei conta. Eu estava tentando levantar do banco do meu carro, amarrado em um cinto de segurança. Não tinham tambores, nem pratos, e em minhas mãos, não havia baquetas. Era o trânsito da Avenida do Estado outra vez, na minha frente. As luzes vermelhas e esbranquiçadas eram os faróis e luzes de freio dos outros carros.
E lá estavam de novo os tiozinhos vendendo besteiras, os motoqueiros buzinando no corredor, a molecada pedindo esmola e os camaradas querendo limpar o vidro do meu carro. O semáforo continuava verde e o trânsito continuava parado. Eu ainda tinha que ir trabalhar no outro dia, fazendo aquilo que eu não queria e sendo quem eu não devia ser.
Mas, como dizem por aí, a vida continua. Eu sei que vou sair desse trânsito, porque amanhã, vou ter que encarar ele de novo.